Santa Dulce dos Pobres


A Santa Dulce e o Dia do Médico

Por Vanderlei Testa

Ganhei da minha filha Camila um dos presentes mais desejados da minha vida. O livro Legenda Áurea, Vidas de Santos, de Jacopo Varazze. Sei que nas suas 1040 páginas há uma rica manifestação de textos com detalhes das pessoas que conquistaram o nome de Santo.  É uma obra rara. Foi um pedido que fiz no dia dos pais de 2003. O povo do Brasil viveu nesta semana que passou a experiência de participar da cerimônia da canonização da primeira santa nascida no país. Santa Dulce dos Pobres! Também tivemos a celebração do Dia dos Médicos no dia 18 de outubro.
A carismática freira com suas mãos abençoadas, seus olhos de mansidão e humilde presença em meio aos enfermos de ruas em Salvador, na Bahia, conquistou o coração do Criador desde a sua juventude. Foi iluminada pelo Espírito Santo e exerceu seus dons de religiosa e ser humano que nasceu para servir. Na Legenda Áurea existe um índice com os nomes de 175 Santos. O frei Jacopo em 1267 era “mendicante”. Numa praça pública italiana fez seu sermão “exemplum”. Ele pregava com exemplos e historietas. Um dia o frei Jacopo falou o seguinte, querendo converter um judeu a ser cristão: Um homem havia tomado emprestado de um judeu, certa soma de dinheiro, e na falta de outra garantia jurara sobre o altar de São Nicolau que a devolveria assim que pudesse. Muito tempo depois o judeu reclamou o dinheiro, mas o devedor reclamou que já havia pagado a dívida. O judeu levou-o a juízo e exigiu que afirmasse, sob juramento, que havia devolvido o dinheiro. Como se precisasse de apoio para andar, o homem compareceu com uma bengala, que era oca e que ele havia enchido de moedas de ouro. Quando foi prestar juramento, pediu que o judeu a segurasse e jurou ter restituído mais do que havia recebido. Após o juramento, reclamou a bengala de volta e o judeu que não suspeitava da artimanha a devolveu. No caminho de volta para casa, o culpado sentiu um sono repentino, adormeceu em um cruzamento e uma carroça que vinha em velocidade matou-o, quebrou a bengala, e o ouro que a enchia espalhou-se pelo chão. Avisado, o judeu correu acorreu ao local e entendeu a artimanha que tinha sido vítima. Tendo alguém sugerido que pegasse seu ouro, recusou-se taxativamente, a não ser que o morto voltasse à vida pelos méritos do bem-aventurado Nicolau, acrescentando que se tal acontecesse ele receberia o batismo e seria cristão. Incontinenti, o morto ressuscitou e o judeu foi batizado em nome de Cristo.
Legenda Áurea. Legenda, literalmente quer dizer, “aquilo que deve ser lido” e também “sentido da vida de santos”, de grande valor moral e pedagógico (daí áurea, “de ouro”). Assim, o frei Jacoppo de Varazze com seus sermões bens humorados, como na historieta do judeu, serve aos pregadores até hoje como “exemplum”( instrumento de persuasão).

Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes é o nome de batismo da Irmã Dulce. A irmã Dulce provocou pela fé a emoção dos brasileiros e conseguiu realizar a sua obra com o seu exemplo de vida como instrumento de persuasão. Ela, com a sua humildade realizou o sonho de Deus. A sua relíquia colocada no altar no Vaticano na missa de canonização é um sacramental que tocou os corações e sentimentos da nação brasileira e do mundo. Ali estava um pedacinho do seu frágil corpo abençoado com o dom dos Santos.  Neste tempo de hoje com tantas violências e desamor, é possível sermos santos na prática de amor ao próximo. O que fazer para mudar o mundo? Dizia uma frase que li na camiseta de uma participante da cerimônia de canonização.  José Mauricio Moreira que foi uma das testemunhas do processo de canonização através da sua cura dos olhos, irradiou alegria e emoção frente ao papa Francisco. Força e coragem levaram a Irmã Dulce a dedicar a vida aos pobres. O seu galinheiro de Santo Antonio se transformou em um dos maiores hospitais do Brasil no atendimento aos pobres.  Tem mais de dois milhões de procedimentos anuais às pessoas no hospital construído pela freira em Salvador. O primeiro milagre de Santa Dulce dos Pobres foi com a Claudia Araújo, com uma graça divina na sua vida. Muitos outros com certeza acontecerão e acredito que o principal será o da conversão das pessoas à prática do bem ao próximo.
Nesta semana em que celebramos o Dia dos Médicos (18 de outubro), dedicamos a cada profissional da saúde as palavras do livro do Eclesiástico, 38: “honra o médico por causa da necessidade, pois foi Deus quem o criou”. Que as mãos carinhosas de Santa Dulce dos Pobres seja o exemplum (instrumento de persuasão segundo frei Jacopo) para todos os médicos na pratica dos atendimentos de cada dia em hospitais, clinicas, UPH, Santas Casas e, em especial, dos seres humanos mais pobres que dependem do Sistema Único de Saúde e, especialmente, das mãos de cada médico e médica no atenderem os pacientes com amor e compaixão.

Vanderlei Testa, jornalista e publicitário  escreve aos sábados no www.facebook.com/artigosdovanderleitesta e no www.jornalipanema.com/opiniões
e quinzenalmente às terças-feiras no Jornal Cruzeiro do Sul

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